10/19/20

PEDAÇOS DA MINHA HISTÓRIA






Queriam nos mandar para brigar na guerrilha do Araguaia para enfrentar os guerrilheiros de lá treinados pelos "comunistas". Que loucura. Treinavamos sobrevivência na selva , um ovo cozido única refeição em dois dias. Correndo nas matas como uns doidos. Pulando dos QT(caminhões QT, qualquer terrono) a 40 e até 50 km por hora, um fuzil FAL (fuzil automático leve, 5 kg), uma faca de campanha para sangrar guerrilheiros adversários e muito ódio do "inimigo".kkk Capacete de aço sobre capacete de fibra, cantil de alumínio, cinto com cartucheira e porte carregador com. Tinta cartuchos e balas de fuzil , FAL- fuzil automático leve, pesava pro nomeadamente 5 kg. Mochila nas costas, com lona de barraca de campanha, um saco de dormir de lona, uma muda de roupa que nunca usei durante os oitos dias de treinamento, duas cuecas samba canção, que não me lembro de ter trocado pois quase não dormiamos. Quando acampávamos, acordavamos no meio da noite com o acampamento sendo tomado de assalto por guerrilheiros de outros batalhões e tínhamos que levantar acampamento as pressas e sair correndo. Era preferível bivacar, ou seja não armar barracas e ai dormiamos dentro de um saco de dormir, também de lona. Na última noite me lembro que quando saí de dentro do saco de dormir, ao levantá-lo do chão percebi que havia dormido em cima de uma cobra coral a qual estava toda esmagada, para minha sorte, pois se estivesse viva poderia ter me picado. Nunca esqueci esdta cena. Quando Mostrei a cobra para os meus vizinhos de infortúnio, eles fizeram a maior gozação da minha cara de horror, pois tenho muito medo de cobra. No Município de Itororó exercitando desta feita uma guerra convencional. Subiamos Serra experimentando não mais balas de festim mas balas reais e granadas de verdade lançadas por morteiros de 80 mm. Sob uma chuva de tiros de canhões e morteiros enfrentando o matagal, partes remanecentes da Mata Atlântica. O pior foi foi enfrentar um capim que chamam de tiririca que corta igual â navalha. Muitos tiveram cortes profundos nocorpo com perda de muito sangue. É que somos caatingueiros e não conheciamos a vegetação da Mata Atlântica e pagamos muito caro por não conhecermos. Diziam para nós que nosso equipamentos pesavam apenas 17 kg. Porém quando tínhamos que atravessarmos riachos ou ribeirões cheios com perseguindo ou sendo perseguidos por nossos "inimigos", ao chegarmos na outra margem desses cursos d'água parecia que o peso era de uma tonelada. Coturnos e calça de brim v.o.(verde oliva) cheios d'água ,era horrivel Tudo isso e muito mais me fez um homem fisicamente forte mas descuidado das emoções? Talvez não. Acho que tive força para vencer algumas peripécias que experimentei na vida, muito fortalecido por estas outras experiências penosas e dolorosas que passei na minha vida de jovem entusiasmado e afoito. Como, por exêmplo, quando um sujeito que nunca soube quem era disparou cinco tiros de revólve em mim. Consegui me livrar apenas me protegendo circulando em torno do fusca e o meliante estava conduzindo, em plena Avenida Getulio Vargas em Feira de Santa, numa boca de noite. Interessante é o fato de nunca ter visto antes aquele indivíduo, tampouco consegui reencontrá-lo depois. Poderia ter me queixado à polícia e ter preso o criminoso, mas não o fiz. Nunca falei sobre esse epsódio com ninguém, nem mesmo em minha casa com a minha companheira, pois para mim aquele era um fato bobo que de mim nem de ninguém merecia a consideração. Depois narrarei outro acontecimento ocorrido na que mesma cidade onde morei e nasceram minha duas primeiras filhas.





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